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Release
Este livro conta a
história de Kátia Ito que, aos 19 anos, em 1983, sem qualquer sinal ou
premonição, foi vítima de um angioma
cerebral que rompeu e sangrou, danificando seriamente o lado esquerdo
do cérebro. Em pleno auge de sua juventude, cursando Medicina, vivendo intensamente
seus sonhos, projetos e amores, Kátia teve seu futuro promissor
interrompido por um “acidente” tão rápido quanto inexplicável.
Ficou 10 dias em coma, esteve perto da morte, e todas as tentativas da família
eram no sentido de salvá-la. Como, na época, a Alemanha dispunha de
modernos métodos neurocirúrgicos, Kátia foi submetida a uma delicada
cirurgia em Berlim, realizada pelo especialista e renomado neurocirurgião
Prof. Dr. Mario Brock. As seqüelas deste sangramento não podiam ser piores: Kátia ficou com
amnésia, praticamente muda, com o lado direito do corpo paralisado.
Esqueceu de toda sua história pessoal, não se lembrava mais de seus
amigos, não sabia mais ler, escrever, raciocinar, não podia mais
sonhar... Passou a viver como um vegetal, totalmente dependente da ajuda
das pessoas à sua volta. Às vezes, ficava parada diante do espelho,
olhando para o seu corpo inerte, sem saber quem era e o que estava fazendo
ali. E começava a chorar... Muitas vezes Kátia desejou apagar de sua
vida aquele fatídico dia, da mesma forma como ele foi apagado de sua memória.
A garota cheia de sonhos e amigos havia se transformado em apenas mais uma
paciente. E, como podemos constatar no livro, muito paciente... Foram
dias intermináveis, nos quais a possibilidade de retomar uma vida normal
estava reduzida a probabilidades médicas. Por vezes lhe disseram que, se
ela tentasse mais e mais, talvez conseguisse algum tipo de resultado.
Apaixonada pela vida, Kátia não se conformou em obter apenas pequenos
resultados. Buscou alternativas, terapias, saídas, e, os poucos, a sensação
aterrorizante de vazio foi sendo preenchida pela vontade de conquistar
novamente uma existência digna. Ouvimos
dizer que o ser humano utiliza apenas 30% da sua capacidade cerebral,
enquanto os outros 70% são uma espécie de reserva para os casos de
necessidade. Talvez isso explique muita coisa, inclusive o fato de Kátia
haver conseguido se formar em Fonoaudiologia, Comércio Exterior e ainda
trabalhar com êxito nessas áreas mesmo após ter perdido boa parte dos
seus neurônios, da capacidade cognitiva e dos seus movimentos. E como o raio pode, sim, cair duas vezes no mesmo lugar, aos 33 anos, em 1996, Kátia foi vítima de outra hemorragia cerebral, de uma segunda provação. E teve que se manter firme e forte em seu propósito de sobreviver com dignidade e alegria. Esta
é mais que uma história fascinante, de determinação e de força. É
uma lição de vida, a lição de uma mulher que conheceu o outro lado do
sol e, da penumbra, expandiu sua própria luz... E como
Kátia diz em seu livro: “Continuo lutando para ter de volta aquela parte perdida da minha vida. Não estou falando de uma espera cômoda por um sonho inatingível. Para mim, esse é um milagre possível, assim como o fato de eu ter sobrevivido a dois sangramentos cerebrais e ainda estar em plena atividade, com saúde. E um milagre possível, para mim, é algo muito diferente dessa noção ocidental que implica um fenômeno sobrenatural ou uma intervenção divina direta. É como quando o sol nasce pela manhã e as flores começam a desabrochar, os pássaros começam a cantar... O sol não age diretamente sobre eles, não lhes entrega aquilo que conhece. No entanto, a simples presença da sua luz e do seu campo de energia já é suficiente para que a vida siga o seu curso. Hoje sei como isso funciona, pois vivi também do outro lado do sol... O milagre possível não acontece quando recebemos tudo aquilo que pedimos, mas sim quando recebemos tudo aquilo de que necessitamos...”
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